Nestas próximas eleições, para votar bem, é imprescindível evitar a polarização

Paulo Roberto Guedes | Consultor Associado da Sociedade Faria de Oliveira Advogados | 27 de Maio de 2022

Não tenho qualquer dúvida que os próximos anos, para nós brasileiros, serão tão difíceis como estes últimos e, se quisermos iniciar um processo de recuperação será preciso, antes de mais nada, reconhecer que em toda a nossa história, jamais se viveu uma crise com as dimensões da atual. A crise é total, generalizada e está em todos os lugares e setores da sociedade, assim como em todos os segmentos das atividades econômicas.
Evidente que esta crise também tem causas externas à ‘nossa vontade’ (crises mundiais, pandemia e guerra da Ucrânia), mas ela foi, infelizmente, potencializada pela negligência e incapacidade de muitos de nossos governantes, notadamente nestes últimos 16 anos, com breve ‘amenização’ no governo Temer.
É uma crise que abalou, negativamente, nossas estruturas, nossas instituições, nossos valores e nossas esperanças, fazendo com que o Brasil viva uma ‘grande confusão e uma enorme desordem’. Altíssimo índices de desemprego, de pobreza, de concentração de renda e analfabetismo têm sido algumas das tristes características destes anos. Quase a totalidade dos nossos índices de desempenho, com as raríssimas e honrosas exceções de sempre, piorou. Destaque-se, inclusive, os erros cometidos no combate à pandemia. Não há porque nos iludirmos com propagandas mentirosas e que geram otimismo inexistente e, ao mesmo tempo, ingênuo.

Não bastasse esse verdadeiro ‘caos’, ainda temos um aumento generalizado de incertezas e insegurança gerado por parte significativa de nossa classe dirigente que, insistentemente, ainda ousa desafiar os poderes constituintes e colocar em “xeque” a própria democracia.
Apesar de tudo, e felizmente, e mesmo reconhecendo que ainda cometem muitos erros, as principais instituições brasileiras, no que diz respeito à defesa de Democracia, têm dado demonstrações positivas e firmes. Os poderes Judiciário (STF e TSE, por exemplo) e Legislativo (Câmara, Senado e o próprio “Centrão”), colocaram-se firmemente à favor da Democracia e do Estado de Direito, incluindo aí, total defesa da realização das eleições e da utilização das urnas eletrônicas. Até mesmo as FFAA, com a exceção de alguns poucos militares, tem defendido o que estabelece a Constituição brasileira: quem ganhar as eleições, a serem realizadas com as urnas eletrônicas, assumirá. É o mínimo que se espera!
É triste, mas o Brasil chega ao final de mais um mandato presidencial perdido, vivendo sua maior crise, sem direção e com as “ruas” inertes (ou anestesiadas?). Infelizmente, também parte significativa das classes dirigentes nacionais, em troca de algumas benesses de curto-prazo, deixa de assumir suas responsabilidades e propicia, uma vez mais, que pessoas despreparadas, ignorantes e atrasadas, e inclusive de má-fé, tenham condições para continuar levando o País a situações ainda piores.
Mas é essencial que, ao se reconhecer a importância de lideranças responsáveis e comprometidas com o bem do País, também é necessário a participação, sem armas, de todos os brasileiros. Sem acreditar em salvadores da pátria, com coragem e assumindo concretamente os papeis de cidadão e de eleitor, todos os brasileiros precisarão exercer seus direitos e deveres cônscios de que é possível buscar as melhores soluções para os problemas nacionais. E isso já pode se iniciar com as próximas eleições, pois mesmo com a desinformação e a proposital difusão de notícias falsas e mentirosas, criadas pela ‘má fé’ de muitos, é possível separar o “joio do trigo” e escolher bem.
Dentro do sistema democrático as eleições são o melhor caminho para que a quase totalidade da população brasileira se expresse, conteste e eleja pessoas comprometidas com os interesses maiores da nação, seja para o executivo ou o legislativo. É a Democracia, sem dúvida, o único regime político no qual a correção de rumos é feita pela vontade da maioria. Portanto, votar bem nas próximas eleições é mais do que obrigação. É imprescindível. A Democracia e a Constituição precisam, sempre, ser defendidas, e o voto é um excelente instrumento.

Em publicações anteriores eu já havia feito comentários a respeito da Sra. Samantha Power, ex-embaixadora dos Estados Unidos na ONU, mas acredito que vale à pena repetir uma frase dita por ela no programa Roda Viva da TV Cultura de 26/04/21: “se acharmos que essas tendências (desigualdade, violência, atentado à Democracia etc.) são inevitáveis e nos tornarmos fatalistas, todos ficaremos em casa”, sem qualquer envolvimento no sentido de se pressionar para que sejam feitas as reformas necessárias, seja com relação às mudanças climáticas, ao combate à violência ou de diminuição da pobreza. “Elas se tornarão inevitáveis. É preciso estar alerta e reagir, pois a grande maioria de políticos fica mais complacente, relapso e muito menos eficaz quando sabe que não estão sendo vigiados e cobrados por suas atitudes”. E conclui: “Quando você vê a política funcionando, cria-se um círculo vicioso com mais gente querendo se envolver” (grifos meus).
Portanto, como claramente se percebe, todo o cuidado é pouco, pois neste ano de 2022 as discussões não podem se limitar a nomes, já que estará sendo decidido se queremos um País democrático, com funcionamento pleno e independente de suas instituições, no qual o direito, a liberdade, a livre iniciativa e a economia de mercado sejam valores respeitados, ou se queremos um País com poder centralizado, autoritário, com estruturas arcaicas e comprometidas com o atraso e uma economia estatizada e fechada. No primeiro modelo são claras as possibilidades de crescimento, desenvolvimento, igualdade e justiça social, ao contrário do segundo, no qual o direito, a liberdade e os privilégios servem apenas alguns ‘apaniguados’.

Um novo governo, especificamente no caso do Brasil, precisa investir na geração de empregos, pois é imprescindível proteger as populações desempregadas e mais carentes, único caminho para que não se aumente ainda mais o caos e as tensões sociais. Investir em infraestrutura, educação, segurança e saúde, sem dúvida, são providências também urgentes, assim como as tão ‘decantadas’ reformas.

Mas é fundamental lembrar, como aliás diariamente nos ensina o mundo atual, que o fortalecimento da Democracia e o combate a movimentos racistas, xenófobos e autoritários precisa ser praticado sistemática e ininterruptamente.
Se a democracia tem problemas com a desigualdade e a injustiça social, problemas muito maiores terão as sociedades ditatoriais e autocráticas, comandadas por pequenos grupos de privilegiados, posto que a queda da produtividade, a corrupção e a concentração de renda serão ainda maiores. Inclusive o caos e a desordem.