Nova postura e cultura organizacionais são exigências destes ‘tempos modernos’

Paulo Roberto Guedes | Consultor Associado da Sociedade Faria de Oliveira Advogados | Setembro de 2021

As empresas, de todos os segmentos econômicos, e em todo o mundo, durante a pandemia e principalmente agora que já se discute o momento pós, vem desenvolvendo uma nova agenda de discussão e, consequentemente, de providências. Pelo menos é o que vem ocorrendo em uma grande parte delas.

De fato, é fundamental que se discuta a nova “normalidade”, posto que muita coisa precisará ser alterada, adaptada ou refeita. E se os assuntos são os mais diversos e variados possíveis, as perguntas e as respostas, além de complexas, ainda precisam ser feitas.

Em face de tantas incertezas e das mudanças que se observam na sociedade, no mercado e na concorrência, cada vez mais frequentes e intensas, quais deverão ser as novas estratégias empresariais e como tornar a empresa mais ‘resiliente’? Que competências serão exigidas e como capacitar executivos e funcionários, inclusive e principalmente com relação aos aspectos comportamentais? Como absorver e aproveitar corretamente as novas tecnologias que diariamente se apresentam? É de fato a digitalização um dos caminhos para aumentar a produtividade e a competitividade empresarial? Considerando os riscos atualmente existentes, como desenvolver e praticar atividades mais preventivas? Deverão fazer parte das agendas empresariais, assuntos relativos à sustentabilidade e à utilização de energia renovável? E com relação aos direitos humanos, à inclusão social, combate ao racismo, à discriminação e à desigualdade?

Em síntese, diante de tantos desafios empresariais e da própria sociedade como um todo, pois a interdependência entre ambos é cada vez maior, como proceder e o que priorizar?

É fato, por exemplo, que o mundo dos negócios e dos investimentos tem olhado mais positivamente para as empresas que se preocupam com as melhores práticas de administração e governança, não sendo à toa que muitas tem, particularmente nesta época de pandemia, assumido mais responsabilidades sociais e incorporando novos “valores” e/ou “princípios” aos seus propósitos, muitos dos quais podem ser resumidos na sigla ESG (“Enviromment, Social e Governance / Meio Ambiente, Social e Governança”).

Aliás, e à bem da verdade, isso não é de hoje, como nos explica e economista e ex-presidente do BCB Gustavo Franco, em seu livro “Lições Amargas” (selo História Real da Editora Intrínsica, 2021), ao comentar o surgimento do ‘acrônimo’ ESG, uma vez que esse acrônimo “sucede e incorpora um conjunto de princípios que já vinha sendo adotado na indústria de administração de investimentos, sobretudo por investidores institucionais, conhecido como PRI (Principles of Responsible Investments), que teve início em 2005 como uma iniciativa do Secretário das Nações Unidas, Kofi Annan.

Em artigo publicado dia 27 pp, no site da LogWeb (“A logística durante e pós a pandemia), eu escrevi que “com o surgimento da pandemia e a queda na produção em todo o mundo, foi natural que a quase totalidade das empresas, inicialmente, tivessem como única preocupação a sua própria sobrevivência. Rígido controle de caixa e de custos, proteção dos empregados, ampliação de portfólio, melhoria de atendimento e utilização da tecnologia disponível para aumento da produtividade, foram providências padrão em quase todas as empresas”. Mas finalizei: “é essencial, agora, planejar o futuro e repensar os negócios.

Pois é, se temas cada vez mais complexos e novos já faziam parte das agendas de todos, ainda antes da pandemia, agora tudo ficou mais complicado, pois as cadeias produtivas, as relações comerciais, as formas de contratação etc., serão alteradas e obrigarão todos os empresários a desenvolverem, com base em perspectivas futuras ainda bastante desconhecidas e incertas, propostas empresariais que mantenham a qualidade, atendam as expectativas de clientes e acionistas e gerem valor a todos os “stakeholders”.

Muito já se fala, por exemplo, em “Capitalismo Consciente”, movimento que, desde 2008, defende a total possibilidade de se conciliar obtenção de lucros e colaboração com as igualdades de gênero, raça, cor etc., pois a todos parece injusto que mais de 80% da riqueza mundial gerada seja apropriada por apenas 1% das pessoas.

Ainda de acordo com os defensores desse pensamento, “os negócios são bons quando criam valores para todos, éticos porque baseados na troca voluntária, nobres porque elevam a existência, heroicos porque tiram as pessoas da pobreza e promovem a prosperidade” (grifos meus).

Um dos fundadores do “Capitalismo Consciente”, o indiano Raj Sisodia, mestre em Política de Mercado e Negócios pela Univesidade de Columbia, em seu livro “Empresas que curam”, é taxativo: “Estamos aqui para cuidar uns dos outros e as empresas são a forma de se fazer isso em larga escala”. “Se não fizermos parte da cura, com certeza seremos parte da dor”.

Portanto, parece estar cada vez mais claro e evidente que este é o momento exato para executivos e empresários entenderem que, além dos interesses empresariais, também é necessário considerar, em suas decisões, as novas exigências da sociedade, nas quais o combate à desigualdade, à violência e ao racismo, e o respeito à diversidade, ao meio ambiente e às leis vigentes, já fazem parte das ocupações diárias de muitos. O culto a esses valores, aliado a processos de treinamento, auditoria, controle e compliance, reforçará a conscientização de que todos somos responsáveis e que a solução dos problemas maiores da sociedade precisa da contribuição de cada um de nós, pessoas físicas ou jurídicas. De forma intensa, mudanças organizacionais e comportamentais efetivas se farão presentes.

Consequentemente, o papel a ser desempenhado por cada um de nós, deverá ser mais abrangente, concreto e efetivo do que o atual, tanto no reconhecimento da realidade que nos cerca, como na aceitação desses “novos” valores. Empresas, associações de classe e executivos, precisam se pronunciar a respeito e tomar partido, pois é urgente que, diferentemente de modismos e soluções circunstanciais, sejam encontradas respostas sistemáticas e institucionais para, concretamente, vir a fazer parte da cultura e da gestão empresariais.
Para finalizar, reescrevo parte de um parágrafo publicado, em janeiro de 2019, no site do Guia do TRC: “entender os reais impactos de nossas ações junto à toda a sociedade, e não somente junto às nossas empresas é fundamental, pois ao final de tudo, de um jeito ou de outro, essas ações irão impactar a vida de milhões de pessoas”.